O ano de 2006 foi marcado por algumas características fundamentais no campo econômico, podendo ser considerado, em alguns aspectos, como um divisor de águas em relação ao comportamento de diversas variáveis.
No campo da inflação, sem dúvida, a mudança foi significativa, pois, desde a implementação do regime de metas para inflação em 1999, o Índice de Preços ao Consumidor - Amplo (IPCA) não registrava uma variação tão abaixo do centro da meta estabelecida. Ao mesmo tempo, a evolução dos preços mostrou uma maior simetria de comportamento entre os grupos que compõem o índice, indicando uma maior convergência em termos da dinâmica da evolução dos preços dos diversos itens que compõem o IPCA.
Embora ainda seja perceptível o efeito da apreciação da taxa de câmbio sobre esse processo, fica claro que o ambiente inflacionário para 2006 foi extremamente favorável, devendo valer o mesmo para 2007. Esse fenômeno, em tese, abriria um espaço para maior ousadia do ponto de vista do Banco Central (BC) em termos de redução da taxa básica de juros.
Nesse contexto, não restam dúvidas acerca do conservadorismo exagerado do BC na condução da política monetária ao longo do ano. A lentidão na queda da taxa básica de juros ante um ambiente de franca redução da inflação, sem sombra de dúvida, foi uma das principais responsáveis pelo baixo crescimento de 2006. Mesmo no final do ano, as vendas no varejo apresentaram um desempenho moderado, abaixo do que seria esperado em um contexto de recuperação econômica mais vigorosa.
As indicações do Banco Central, nesse sentido, apontam para um maior conservadorismo na condução da política monetária nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), sinalizando, de antemão, que, à exceção de alguma mudança significativa no âmbito da condução da política econômica, o ano de 2007 também deverá ser marcado por um baixo crescimento. A esse quadro pode ser adicionado o fato de que o setor externo, diferentemente do observado em anos anteriores, inverteu o sentido da sua contribuição ao crescimento econômico, uma vez que as importações estão crescendo de modo mais veloz ao das exportações há algum tempo. Dada a perspectiva de que a taxa de câmbio não deverá se depreciar significativamente nos próximos meses, é razoável supor que essa dinâmica não deverá ser alterada, ainda que o saldo comercial deverá manter-se superavitário.
A síntese desses elementos sugere que 2007 deverá ser uma extensão do comportamento dessas variáveis observado em 2006. Em outras palavras, afora surpresas, a inflação deverá se manter em patamar baixo, o ritmo do crescimento será moderado e o ciclo de redução da taxa básica de juros por parte do BC, muito provavelmente, se encerrará. A grande dúvida que começa a ser desenhada para 2007 tem origem em 2006 e diz respeito ao comportamento das contas públicas. Na verdade, a natureza do ajuste fiscal brasileiro desde 1998 sempre exibiu uma fragilidade intrínseca ao centrar a estratégia do lado do aumento da arrecadação e da carga tributária sem realizar um ajuste efetivo do lado dos gastos públicos — a velocidade da expansão da carga tributária nos últimos anos foi acompanhada pela evolução dos gastos. No último ano essa dinâmica se agravou diante da evolução dos gastos superior à das receitas, o que tem contribuído para corroer o resultado primário do setor público em 2006 relativamente A 2005.
A gravidade dessa questão começa a se deslocar para 2007 ante os sinais de aumentos de gastos provenientes de vários segmentos do governo sem que um esforço maior em termos de eficiência e priorização esteja em curso. Desse processo, está claro que, na ausência de um ajuste do lado dos gastos públicos, existem poucas alternativas e podem, basicamente, ser centradas em um novo aumento de carga tributária em 2007 para que as contas sejam fechadas ou na admissão de um resultado primário menor. Essas questões ainda estão sendo confrontadas no âmbito do governo, mas sem dúvidas as primeiras respostas deverão ser dadas no começo do ano.
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