A preocupação com o aquecimento global e a necessidade de se encontrar fontes alternativas aos combustíveis fósseis podem dar um impulso extra à onda de investimentos no setor sucroalcooleiro no Brasil. O tema ganhou força nas últimas semanas, depois que norte-americanos e brasileiros anunciaram a firme intenção de criar um mercado internacional para o álcool combustível. Representantes dos dois governos devem debater o assunto a partir do próximo dia 8, quando o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, che ga a Brasília para uma visita oficial.
“A queima de combustíveis fósseis está, comprovadamente, causando problemas irreversíveis. Isso despertou demanda por combustíveis renováveis, e vai gerar uma verdadeira revolução nos fluxos de investimentos, que vão se direcionar principalmente para o Brasil”, diz Virgílio Gibbon, coordenador da FGV Projetos e membro do recém-criado Comitê Interamericano de Etanol – que tem entre seus representantes o ex-governador da Flórida, Jeb Bush, e o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.
Gibbon diz que os estrangeiros não precisam, necessariamente, fazer investimentos diretos no Brasil, construindo usinas próprias e “desnacionalizando” o setor. Para ele, os investidores podem financiar a construção de indústrias a juros baixos e mais tarde, ao importar álcool brasileiro, compensar emissões de poluentes por meio dos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL) criados pelo Protocolo de Kyoto – o que é possível porque o álcool polui bem menos que a gasolina.
“Em vez de emprestar dinheiro a industriais brasileiros cobrando a variação do câmbio mais 8% ao ano, os estrangeiros podem cobrar o câmbio e mais 2%. O que eles perdem em juros, vão ganhar em dobro com a importação do álcool”, explica o coordenador da FGV Projetos. Segundo ele, o país desenvolvido que importar uma tonelada de etanol, em vez de comprar a mesma quantidade de gasolina, estará dispensando a emissão de 2,82 toneladas de carbono. Os créditos gerados a partir daí poderão compensar as emissões da empresa importadora.
Milho e soja
A febre do etanol pode ter outro efeito colateral positivo para o Brasil. Pelo menos dois importantes cultivos do país podem sair ganhando: milho e soja, dos quais os norte-americanos são, com folga, os maiores produtores do mundo. Como os EUA tendem a priorizar as vendas de milho para a produção interna de etanol, seus excedentes para exportação vão diminuir – isso abrirá espaço para o grão brasileiro no mercado internacional.
Além disso, a área de milho na próxima safra norte-americana deve crescer 17%, segundo estimativa da Agroconsult, tomando um razoável espaço da soja – cuja área deve cair 13%. Com a esperada redução na safra norte-americana, os preços internacionais da soja tendem a melhorar ao mesmo tempo em que os EUA terão menos soja disponível para exportação. Novamente, ponto para o Brasil, segundo maior produtor mundial.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário