Em recado direto para o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu ontem que os dois países, os maiores do Mercosul, sejam “mais generosos” com os vizinhos mais pobres e afirmou que integração significa, sobretudo, “despojamento de interesses pessoais e até de um interesse nacional”. Em discurso na abertura do Foro de Governadores e Prefeitos do Mercosul, ele também criticou indiretamente o Uruguai, que discute a possibilidade de negociar um Tratado de Livre-Comércio com os Estados Unidos.
“A minha tese é a de que os países mais fortes têm que ser sempre mais generosos, ter políticas para ajudar os países mais pobres. Foi assim que a União Européia conseguiu ajudar o desenvolvimento da Espanha, ajudar o desenvolvimento de Portugal da Grécia, e agora está ajudando outros novos 15 parceiros. Esse é um gesto que os países maiores têm que fazer.”
A declaração ocorre após a tentativa da Argentina de bloquear a estratégia do governo Lula de favorecer o ingresso pleno da Bolívia no Mercosul sem exigir o cumprimento da Tarifa Externa Comum (TEC), instrumento que confere ao bloco o caráter de união aduaneira. Lula disse que o desafio é “gigantesco” e reconheceu que há problemas de assimetria e desigualdade “muito fortes” entre as economias dos países, mas afirmou que a solução “não depende da Europa, não depende do Japão, não depende da China e não depende dos Estados Unidos”. “É um desafio que vai precisar de despojamento. Despojamento de interesses pessoais, despojamento até, de vez em quando, de um interesse nacional, para reparti-lo com alguém que precisa um pouco mais do que nós.”
Lula disse que Brasil e Argentina são os que têm mais responsabilidade no processo. “Os dois maiores é que têm mais responsabilidade. Nós é que temos que ser mais generosos, nós é que temos que ter maiores compreensões, mas muitas vezes, também não podemos ser vítimas de que a desgraça daqueles países dependa dos nossos países.”
Segundo ele, a compreensão da necessidade só vem com a maturidade e a evolução da classe política. “Integração significa, sobretudo, despojamento, ou seja, eu não quero tudo para mim, eu quero para mim apenas aquilo que eu preciso. Uma outra parte daquilo que eu quero tem que ir para outro”, declarou. “Vira e mexe eu ouço dizer: ‘é melhor fazer acordo com os Estados Unidos do que com o Brasil’. Se estiver pensando no imediato, até pode ser, para um mês ou para um ano. Mas este continente já tem muita experiência, muitas frustrações e muitas decepções.”
Lula admitiu que hoje há uma “debilidade” na integração. “Nós fomos repúblicas colonizadas e todos nós tivemos a nossa cabeça voltada, num primeiro momento, para a Europa, e, depois, para os EUA. Nós nos víamos como inimigos. Até pouco tempo, a Argentina era considerada uma ameaça imperialista e o Brasil foi considerado imperialista.”
Ele citou conversa que teve com um ex-presidente da Bolívia, em 2002: “Ao me visitar, ele disse: ‘Lula, eu passei 50 anos acreditando que o Brasil era uma ameaça, e dediquei 20 anos a acreditar que os EUA iriam salvar a Bolívia. Agora, quero dedicar esses quatro anos a acreditar que o Brasil pode ser melhor para a Bolívia do que foram os EUA.”
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